O manuscrito era uma conta de lavanderia
Jane Austen e a diferença entre imaginar um crime e reconhecer uma crueldade
Beatriz Avelar · Leitura de A abadia de Northanger
O terror deve ter contas a pagar. Catherine Morland, porém, não esperava encontrá-las dentro do móvel que prometia revelar um segredo. Depois de uma noite de vento, ruídos e ansiedade, a jovem abre os papéis que havia descoberto. Camisas. Meias. Gravatas. Coletes. Se houve uma vítima, alguém se deu ao trabalho de mandar lavar sua roupa.
Em A abadia de Northanger, Jane Austen acompanha uma leitora de romances góticos — histórias de castelos, ameaças, passagens escondidas e mulheres perseguidas. Catherine tem dezessete anos. Ao conhecer a família Tilney e ser convidada para a antiga abadia onde vivem, parece ter encontrado o endereço apropriado para suas expectativas. Henry, por quem está apaixonada, já brincou com ela durante a viagem, inventando os perigos que uma heroína poderia esperar naquele lugar. A imaginação da visitante chega com companhia.
A descoberta dos papéis ocupa o fim do capítulo 21. A revelação de seu conteúdo abre o 22. Entre uma coisa e outra, Catherine e o leitor atravessam uma noite. Austen poderia desfazer a suspeita imediatamente; prefere cobrar algumas horas por ela.
Na manhã seguinte, a criada abre as cortinas. Catherine recolhe as folhas e volta para a cama, disposta a saborear a descoberta. Até a posição é confortável: o risco pode ser consumido no travesseiro. Então as palavras legíveis destroem o mistério. Outros papéis registram gastos igualmente modestos. A repetição importa. Uma folha poderia ser um engano; a quarta e a quinta já são uma insistência do mundo em continuar banal.
É fácil rir de Catherine. Mais difícil é acompanhar até o fim o que esse riso nos faz aceitar.
A cozinha não cabe no castelo
No passeio pelo edifício, o general Tilney, pai de Henry e Eleanor, quer exibir suas comodidades. Catherine quer o passado sombrio. Ele mede, elogia, mostra; ela procura o que estaria escondido. Os dois atravessam os mesmos cômodos visitando casas diferentes.
A cozinha reúne a antiga construção e os equipamentos modernos. Há outros espaços de serviço e empregados em quantidade que os romances de Catherine não tinham preparado para imaginar. A narradora recorda os castelos enormes em que todo o trabalho parecia caber a duas mulheres. Como conseguiam? A pergunta já havia intrigado a senhora Allen, amiga mais velha que costuma ser lembrada por seu interesse em roupas.
Essa pequena transferência é saborosa. A mulher aparentemente distraída pela moda reparou numa impossibilidade prática que a leitora entusiasmada não tomou como problema. Quem lava, limpa, acende, carrega e serve? As mãos necessárias para manter a aventura não costumam receber tanto espaço quanto a porta proibida.
Austen não transforma a visita numa contabilidade completa do trabalho doméstico. Dá, contudo, empregados e instalações a um edifício que a fantasia deixava pronto para o uso. O castelo continua grande; o número de pessoas que o fazem funcionar acaba de aumentar.
O monstro errado
Mais adiante, Catherine suspeita de que o general tenha praticado uma violência terrível contra a esposa, morta anos antes. Henry a encontra investigando o quarto da mãe e exige que confronte a fantasia com o que sabe. Sua explicação desfaz a hipótese. Catherine sente vergonha.
Se o romance terminasse aí, seria simples: a moça leu demais, interpretou mal, recebeu uma correção. Mas ainda resta tempo de visita. E a casa se torna notavelmente mais agradável quando o general sai.
No capítulo 28, a diferença aparece nas ações permitidas. Todos podem rir, escolher o passeio, comer sem constrangimento, comandar os próprios horários. Austen não precisa anunciar que o anfitrião sufocava os outros. Basta retirá-lo para que as mesmas pessoas usem a casa de outro modo.
O retorno é abrupto. Eleanor sobe ao quarto de Catherine, perturbada, para transmitir uma ordem: a visitante deve ir embora. Não na segunda-feira que tenta propor, mas na manhã seguinte, às sete horas, sem criado para acompanhá-la. A jovem havia chegado como hóspede desejada. Agora o horário da carruagem já foi decidido sem ela.
Eleanor é filha do dono e continua na casa. Ainda assim, explica que é senhora dela apenas no nome: não tem poder real para impedir a expulsão. Aqui a porta abre, mas a liberdade diminui. Sair é uma ordem.
A razão aparece depois. O general acreditava que Catherine seria rica; quando muda de opinião sobre sua fortuna, muda também o tratamento. Ela havia imaginado o delito errado. A correção dessa fantasia não tornou o homem generoso.
Austen exige duas revisões, uma da personagem e outra de quem ri dela. Catherine precisa abandonar a acusação sem prova. Nós precisamos abandonar a ideia de que uma acusação falsa absolve alguém de tudo o que pode fazer. A crueldade comprovada no romance dispensa cadáver escondido: usa posição social, cálculo de patrimônio e uma carruagem pontual.
O móvel continha contas de lavanderia. A casa, um homem disposto a pôr uma jovem na estrada.
Duas passagens, lado a lado
O papel, capítulo 22. “An inventory of linen” — “um inventário de roupa”. O substantivo descreve uma lista de peças; não confirma a história que Catherine levou até ela. Observe como a sequência de folhas retarda a aceitação do conteúdo.
A autoridade, capítulo 28. “My real power is nothing” — “meu poder real é nenhum”. Eleanor conhece a ordem e discorda dela. A frase distingue ter um lugar na casa de decidir o que acontece nela. As duas traduções breves foram feitas para este caderno.
Para reler: compare o cuidado dispensado aos quartos com o dispensado à pessoa que deverá deixá-los. O general aprecia conforto. A quem ele o oferece, e sob quais condições?
Fonte e localização
Jane Austen, Northanger Abbey, capítulos 20–24, 28 e 30. Leitura do original inglês em domínio público, disponível em texto integral. As descrições em português são paráfrases; as duas citações acima trazem o original e a tradução deste caderno. A análise revela episódios decisivos do romance. Não é uma tradução integral da obra.