Livros / Ensaio · Dossiê Anália Franco
Edith toca. Valdomiro foge. O que a música faz em A filha do artista
Filha de um ator que queria vê-la nos palcos, Edith toca Chopin numa sala da fazenda. Carlinda acha que o tio saiu porque não gostou. A narradora oferece ao leitor outra explicação.

Valdomiro abre um livro, fecha-o, torna a abri-lo. Edith está ao piano. O rapaz tenta ler, não consegue, atira o volume sobre a mesa e sai. Pouco depois, monta a cavalo e desaparece no caminho da floresta.
Carlinda, a sobrinha que pediu à amiga para tocar, chega a uma conclusão razoável pelo que viu: o tio não gosta daquela música. O leitor de A filha do artista sabe que ela se enganou. A narradora acaba de descrever um homem tão atraído pela jovem que precisa fugir da sala.
Anália Franco monta a cena no capítulo III da primeira parte. Há um piano, um livro que não é lido e três pessoas que não entendem o momento da mesma maneira. A música permite aproximá-las sem que nenhuma delas precise fazer uma declaração de amor. Ao contrário: quando Edith toca, aumenta o trabalho que Valdomiro tem para ocultar o que sente.
A leitura comenta a formação de Edith e duas cenas musicais do romance, sem revelar seu desfecho.
O palco que o pai imaginou
Álvaro de Souza, o pai de Edith, era um trabalhador de companhia ambulante. Ensaiava cantos, desenhava caricaturas e pintava cenários. Ao casar-se com Hermantina, abandonou as viagens e passou a ensinar música e desenho no Rio de Janeiro. A doença da mulher e a falta de recursos o levaram de volta à companhia; as ausências prolongadas também o afastaram da família.
A reaproximação acontece quando ele se impressiona com a filha. Edith toca ao piano fantasias difíceis, e Álvaro passa a aperfeiçoá-la em música e pintura. Ela aprende também harpa. A narradora sugere afeição e vaidade no entusiasmo do pai, que imagina a jovem estreando nos grandes teatros da Corte.
Hermantina não aprova o plano. O romance não desenvolve ali uma discussão longa entre os pais; registra a oposição e interrompe a carreira imaginada com a morte de Álvaro. Os aplausos que ele esperava permanecem no futuro que não chegou a presenciar.
Esse passado dá ao título uma ambiguidade que Delmira tenta eliminar. Para a senhora da fazenda, o trabalho teatral serve de insulto à origem de Edith. Para o leitor, inclui técnicas aprendidas, relações familiares difíceis e uma possibilidade de profissão. A filha traz consigo tanto o preconceito associado ao pai quanto a formação que recebeu dele.
Chopin, Schumann e Schubert
Na sala da Bela Vista, Edith já não está diante do público que Álvaro imaginou. Carlinda pede uma melodia de que gosta. Valdomiro permanece próximo, com um livro, depois de uma situação que deixou a jovem constrangida. Edith tenta adiar a execução; a menina insiste, e ela acaba cedendo.
A narradora informa que os compositores favoritos de Edith são Chopin, Schumann e Schubert, cujas peças melancólicas se aproximam da tristeza que lhe atribui. A melodia tocada naquela tarde é do primeiro deles. O texto não fornece seu título. Não há base para escolher uma obra específica e anunciá-la como a trilha sonora da cena.
O que o romance descreve com precisão é a resposta dos ouvintes. Carlinda se aproxima e contempla a amiga; Valdomiro fecha os olhos, inquieta-se e manuseia o livro sem conseguir acompanhar uma linha. A música ocupa a atenção que a página impressa deveria absorver. O objeto permite que ele finja distância, mas seus movimentos a desmentem.

Jovens ao piano, de Pierre-Auguste Renoir, 1892. A pintura acompanha o tema da escuta doméstica; não representa Edith e Carlinda. Fonte e identificação. Domínio público.
Há nessa passagem uma atuação sem palco. Edith executa, Carlinda solicita e escuta, Valdomiro tenta controlar o que sua reação deixa perceber. A narradora conta que ele parece fugir de uma atração irresistível. A menina, que não tem acesso a essa explicação, lê a saída como rejeição à música. O leitor pode ver, ao mesmo tempo, a força da execução e o erro de interpretação que ela produz.
O título do romance volta a ganhar sentido nessa pequena plateia. Álvaro aparece menos como lembrança biográfica que como alguém cujo ensino ainda age: a habilidade que cultivou na filha interfere nas relações de uma casa à qual ele nunca chegou.
Depois do piano, o canto do trabalho
Edith começa a repetir a melodia a pedido de Carlinda, mas a menina a chama à janela. As duas acompanham a partida do cavaleiro. A narração deixa o piano e passa ao crepúsculo. Ao longe, ouvem-se canções das pessoas escravizadas que continuam trabalhando.
A transição reúne duas situações musicais desiguais. Dentro da casa, a execução de Edith recebe nomes de compositores, descrição de sua habilidade e atenção às reações que provoca. Do lado de fora, as vozes entram coletivamente na paisagem. O texto as aproxima da tristeza da tarde, dos pássaros e das cascatas.
Essa escolha embeleza a cena e também mostra a distribuição de sua atenção. O romance individualiza a artista ao piano; o canto do trabalho chega de longe. Quem lê pode reconhecer o efeito lírico e reparar na distância que ele conserva entre a protagonista e as pessoas cuja música compõe seu horizonte.
Carlinda comenta que o tio não gosta da melodia. Edith se cala e, quando a menina pergunta em que pensa, responde que se lembra da infância e dos acontecimentos que a afastaram da terra natal. A conversa retorna ao passado que a música trouxe para dentro da fazenda, sem resolver o que o leitor já sabe sobre Valdomiro.
A canção que ele ouve sem se aproximar
Na segunda parte, capítulo VII, a relação dos jovens atravessa um período de desentendimento. Valdomiro ouve Edith cantar com acompanhamento de harpa. Dessa vez, a letra aparece na página: fala da tentativa frustrada de afastar as mágoas e da solidão de quem sofre sem ser acreditado.
A canção o comove até as lágrimas. A narradora descreve a harmonia permanecendo em seus ouvidos depois que ela cessa. Mas, no parágrafo seguinte, informa que os dias continuam passando sem tentativa de reconciliação. A disposição para ouvir não se converteu em disposição para conversar.
É um intervalo expressivo. O leitor poderia esperar que a emoção eliminasse o orgulho e precipitasse o encontro. Anália prolonga a distância: Valdomiro se comove, Edith continua sofrendo, e cada um interpreta os sinais do outro por meio do próprio ressentimento. A música faz sentir sem garantir entendimento.
Na primeira cena, ele abandona o livro e foge. Na segunda, permanece escutando e chora. As reações mudam, mas nenhuma resolve sozinha a relação. A herança artística de Edith lhe permite ocupar a sala, alcançar quem a escuta e dar forma à tristeza. Ainda será preciso que alguém fale.
Referência
- Anália Franco, A filha do artista. Editora Busleyden, 2026. Parte I, capítulo II, p. 11–14, e capítulo III, p. 24–28; parte II, capítulo VII, p. 206–209. O romance identifica Chopin na cena do piano, mas não nomeia a composição nem atribui autoria à canção reproduzida na p. 206. A revista pertence à editora da edição analisada.


