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REVISTABUSLEYDEN.

Livros / Ensaio

Edith ganha um quarto. Sua história continua nas mãos dos outros.

Em A filha do artista, Florisa pode acolher a órfã, mas não encerrar o julgamento de Delmira. A abertura do romance separa o poder de oferecer abrigo do poder de fazer alguém ser ouvido.

Helena Saldanha10 min de leitura
Uma jovem com uma pequena mala diante da entrada de uma fazenda, em uma paisagem de colinas.
Ilustração editorial inspirada na chegada de Edith à Bela Vista.

Edith é apresentada duas vezes na mesma conversa. Florisa toma sua mão e a anuncia à sogra como afilhada, filha da amiga que acaba de perder. Delmira responde que já sabe: é “a filha da cômica”. Entre uma apresentação e outra, uma relação de cuidado se transforma numa classificação depreciativa. O nome da jovem, que Florisa acaba de pronunciar, torna-se dispensável.

A cena está na p. 8 de A filha do artista, de Anália Franco, na edição Busleyden. Edith ficou órfã e veio do Rio de Janeiro para morar na Fazenda Bela Vista com a madrinha. Tem onde ficar e alguém que a ama. A recepção mostra, porém, que essas duas garantias não incluem uma terceira: poder participar da definição de quem será dentro da casa.

O que torna a abertura inquietante é que Florisa não se enganou ao oferecer abrigo. Edith entra, recebe um quarto e continua objeto de seus cuidados. A promessa foi cumprida e, ainda assim, a proteção encontra um limite. Numa casa, a pessoa capaz de abrir a porta pode não ser aquela que estabelece as condições da convivência. A hospitalidade tem mais de uma autoridade, e quem chega precisa descobrir a qual delas deverá responder.

A informação muda; o julgamento fica

Florisa corrige a sogra: Hermantina nunca subiu ao palco. Delmira admite que provavelmente tenha sido o marido e acrescenta que isso equivale à mesma coisa. O erro biográfico deixa de importar no instante em que é demonstrado. A profissão pode ser transferida da mãe para o pai sem que a filha escape ao descrédito.

Essa elasticidade distingue o episódio de um mal-entendido que uma conversa esclarecedora resolveria. Delmira não parece empenhada em estabelecer qual dos pais de Edith trabalhava no teatro. A proximidade familiar basta. O preconceito funciona como um modo de encerrar a investigação: o “já sei” vem antes da possibilidade de conhecer.

Há uma diferença importante entre as duas maneiras de apresentar. Florisa situa Edith numa relação que a compromete: é sua afilhada; a morte de Hermantina é uma perda que ela própria sofreu. A apresentação contém uma responsabilidade. Delmira substitui os vínculos concretos por uma categoria e, ao fazê-lo, dispensa qualquer obrigação de perguntar pelo luto, pela viagem ou pela vida anterior da recém-chegada.

Edith não recebe uma pergunta à qual possa responder. Abaixa os olhos e chora ao ouvir o desprezo dirigido à mãe. O silêncio não demonstra que lhe faltem informações para contestar a acusação. Ela conhece a própria família. O que não tem é uma posição reconhecida naquela conversa a partir da qual seus conhecimentos possam interromper o julgamento.

Pode-se objetar que Florisa, ao menos, fala por ela. É verdade, e a intervenção tem valor. A madrinha não deixa a ofensa circular sem contestação. Mas a cena distingue falar em defesa de alguém e conseguir que essa defesa tenha consequência. Delmira conserva a última palavra; Florisa passa da correção ao consolo. Faz Edith sentar-se ao lado e procura reparar a mágoa com atenção. A proximidade muda. A autoridade sobre o que pode ser dito continua em disputa.

Quem administra a paz

O passado da família, contado no capítulo seguinte, impede que expliquemos a situação como o domínio absoluto de uma proprietária sobre todos os demais. A Bela Vista é apresentada como propriedade comum. Delmira administrou a fazenda; Elias, seu filho, participou dos melhoramentos; o casamento dele com Florisa, filha de um homem rico, contribuiu para a prosperidade. Depois da morte de Elias, Valdomiro, seu irmão, assume a direção dos serviços e da casa. A história familiar e administrativa está nas p. 15–16.

Florisa, portanto, dispõe de recursos e de uma posição própria. Transformá-la em outra despossuída equivaleria a absolver antecipadamente sua acomodação. O narrador afirma que ela se ajusta às exigências da sogra e evita censurá-la mesmo diante de atos que lhe parecem desumanos. A paz entre as duas não resulta de concordância moral: depende da disposição da nora para não transformar o desacordo em confronto.

Há um detalhe posterior que torna essa distribuição mais concreta. No passeio pela casa, o gabinete do falecido Elias aparece conservado por ordem expressa de Florisa. Ela pode determinar a preservação de um espaço associado ao marido. O gabinete e as salas estão descritos na p. 21. Sua vontade produz efeitos dentro da residência; seria excessivo dizer que ela simplesmente não manda em nada. O problema é como, quando e diante de quem exerce essa vontade.

Na recepção, Delmira nem sequer precisa demonstrar que tem o poder de expulsar Edith. É suficiente que trate com desprezo alguém cuja presença a nora deseja. O abrigo permanece materialmente disponível, mas se torna penoso habitá-lo. Uma pessoa pode ser admitida numa casa e receber, repetidamente, sinais de que ocupa um lugar indevido.

Esse é o ponto em que a conciliação deixa de beneficiar igualmente a todos. Na p. 9, Florisa, habituada à brusquidão da sogra, não dá importância aos seus gestos; Edith se sente profundamente magoada. O costume protege uma da intensidade que a outra experimenta. Considerar certa conduta apenas o jeito de alguém pode tornar suportável a convivência antiga e, ao mesmo tempo, dificultar o reconhecimento do dano causado a quem acabou de chegar.

A palavra “intrusa” surge no pensamento de Edith ao recolher-se. Ela sabe que foi convidada. Não há confusão sobre o consentimento de Florisa. O sentimento de intrusão nasce da diferença entre o convite e as atitudes de outros moradores. Se procurássemos uma única vontade chamada “a família”, perderíamos justamente o mecanismo que a narrativa construiu.

A melhor defesa de Florisa

Uma leitura severa da acomodação pode se tornar injusta se tratar todo cuidado como instrumento de obediência. O romance dá substância ao afeto da madrinha. Florisa vai ao encontro de Hermantina moribunda, paga despesas e dívidas, acompanha a afilhada no luto e a leva consigo. Não se limita a dizer palavras generosas. Gasta recursos, desloca-se, permanece. O acolhimento é narrado nas p. 18–19.

Além disso, o compromisso de acolher alguém não inclui o poder de governar o pensamento dos outros moradores. Florisa não pode obrigar a sogra a amar Edith. Uma casa com conflitos ainda pode representar uma melhora real na vida de alguém, e a jovem encontra ali afetos que a ajudam a atravessar o luto.

O que está ao alcance da discussão é mais preciso: não a obrigação impossível de governar pensamentos, mas a decisão sobre quais comportamentos serão tolerados. Florisa responde à informação errada e depois acolhe o sofrimento causado pela insistência da sogra. O episódio não mostra uma exigência de mudança dirigida a Delmira. A moça é ajudada a suportar a situação; a situação continua disponível para feri-la.

Na manhã seguinte, a madrinha diz que agora tem duas filhas e celebra o afeto entre Edith e Carlinda. A declaração produz consolo e pertencimento. Não é falsa porque Delmira pensa de outro modo. Mas tampouco é uma decisão soberana capaz de produzir, em toda a casa, a relação que nomeia. A família escolhida por Florisa precisa coexistir com uma hierarquia que ela não desfez.

O cuidado se torna assim mais interessante que uma fachada e menos suficiente que uma solução. Edith pode reconhecer a ajuda e, ainda assim, perceber limites que sua benfeitora não sente com igual intensidade. Não existe ingratidão necessária nessa diferença. A pessoa amparada conhece por dentro o custo de um arranjo que, para quem a protege, talvez pareça razoavelmente bem resolvido.

A história chega ao lugar errado

Depois da chegada, o romance interrompe o avanço da ação para contar o passado. Conhecemos Álvaro de Souza, seu trabalho artístico, a educação de Hermantina, a doença, o empobrecimento, as aulas dadas pela filha. A vida de Edith adquire duração e relações que a expressão de Delmira havia comprimido. Essa retrospectiva ocupa o capítulo II, p. 11–19.

A mudança de escala é também uma mudança de destinatário. A história é fornecida ao leitor. Não é uma fala de Edith dirigida a Delmira, nem uma reunião em que a família ouça as duas partes. Nós recebemos informações sem que o romance tenha de retirar a protagonista do quarto e lhe conceder uma posição pública para narrá-las.

O leitor pode sentir que uma injustiça foi corrigida porque agora conhece melhor a moça. Mas a correção de nosso entendimento não equivale à transformação de sua situação. Delmira não perde autoridade porque lemos o capítulo II. A mesma narrativa que amplia o conhecimento disponível mantém, dentro da casa, a diferença entre saber e poder fazer valer o que se sabe.

O procedimento tem uma força própria. Em vez de transformar Edith numa advogada de si mesma, capaz de expor ordenadamente o sofrimento ainda recente, o livro lhe concede atenção por outra via. A narradora faz o trabalho que a conversa doméstica não fez. Não é preciso exigir da órfã, naquela primeira noite, uma autobiografia convincente para que o leitor tenha acesso a sua vida.

Mas seria excessivo identificar esse acesso com a posse da própria voz. Edith recebe uma história narrada em seu favor. A escolha do momento de contá-la, dos acontecimentos pertinentes e das causas que os ligam pertence à narradora. O contraste entre o julgamento da casa e o conhecimento do leitor não se resolve numa passagem simples da dependência à autonomia. Muda quem pode contar — e para quem.

Na abertura, na p. 1, essa mesma voz havia prometido sinceridade e chamado a história de verídica. Trata-se de uma apresentação feita pelo próprio texto, não de prova documental de que os episódios ocorreram. A promessa ajuda a estabelecer confiança. O romance pede que aceitemos sua mediação, enquanto nos mostra as consequências de confiar na mediação hostil de Delmira. A questão da autoridade não fica restrita às personagens: alcança o modo pelo qual lemos.

Um tribunal sem sessão

O tribunal doméstico continua funcionando depois que as palavras cessam. Sentada numa rede diante da moça, Delmira a examina em silêncio; ao terminar, abana a cabeça num gesto que a narrativa associa à prevenção e à malevolência. A correção de Florisa respondeu a uma frase. A hostilidade encontra outra forma de permanecer, agora sem sequer oferecer uma afirmação que possa ser contestada.

Para Edith, os efeitos não são pequenos. O convite deixa de garantir que se sinta admitida. Sua história anterior perde pertinência diante de uma filiação convertida em desvantagem. Corrigir o fato não encerra o juízo. A injustiça circula pela conversa ordinária, protegida pela possibilidade de parecer banal a quem já se habituou a ela.

O romance não concede à jovem, nesse começo, uma réplica triunfal. No quarto, ela busca consolo, recorda a mãe e reza. Sua vida interior ocupa a página com uma intensidade que a apresentação doméstica não comportava. Aqui ao menos a dor pode desenvolver-se sem que Delmira a interrompa para dizer que já sabe tudo.

A leitura oferece essa hospitalidade de atenção. Seu limite é não poder ser confundida com o abrigo que Edith está efetivamente ocupando. Nós passamos ao capítulo seguinte e ganhamos acesso ao passado. Ela precisa dormir na casa onde uma versão hostil sobre si circula sem que tenha sido ouvida. A porta se abriu; a conversa ainda não.

Referência

  • Anália Franco, A filha do artista. Editora Busleyden, 2026. Parte I, capítulos I–III, p. 1–29; apresentações e réplica, p. 8; reação das personagens e recolhimento, p. 9–10; retrospectiva, p. 11–19; composição familiar e administração, p. 15–16; acolhimento, p. 18–19; declaração de Florisa e gabinete de Elias, p. 21. As citações e os locadores seguem esta edição. A análise se limita à abertura.

A assinatura

Helena Saldanha

Literatura, intimidade e formas narrativas.

Revisto em 12 de setembro de 2026. Publicação original: 7 de setembro de 2026.