A revistaSetembro 2026Arquivo
REVISTABUSLEYDEN.

História / Ensaio

Anália Franco queria leitoras livres. Livres para discordar dela?

O Álbum das Meninas combatia a limitação intelectual das mulheres e prometia conduzir suas leituras. Essa tensão ajuda a entender o poder — e o risco — de toda educação literária.

Beatriz Avelar11 min de leitura
Uma mão folheia um volume antigo ao lado de periódicos sobre uma mesa de leitura.
Ilustração editorial de uma consulta a livros e periódicos.

Uma revista dedicada às jovens brasileiras começa convocando mães e educadores. Antes de falar com as leitoras que anuncia no título, procura quem pode autorizar sua chegada às mãos delas. A escolha está à vista no primeiro número do Álbum das Meninas, publicado em 1898: o texto de abertura de Anália Franco se chama “As mães e educadores”.

Não há nada de surpreendente em desejar a colaboração de quem educa. O detalhe ganha interesse quando acompanhamos o programa. Anália quer ampliar o acesso à instrução, prolongar no lar o aprendizado escolar e oferecer textos agradáveis. Ao mesmo tempo, pretende combater formas de literatura que considera moralmente nocivas. A revista deve levar a leitura a mais pessoas e orientar o que essa leitura fará com elas.

Seria simples escolher uma das duas operações para definir a outra: celebrar a abertura e desculpar a condução, ou denunciar a condução e ignorar a abertura. As páginas resistem a ambas as facilidades. A mesma escritora que protesta contra o confinamento intelectual das mulheres reivindica o poder de formá-las moralmente. Seu projeto não se esclarece quando eliminamos essa tensão, mas quando perguntamos o que ela torna possível e onde começa a limitar as leitoras.

O jornal entra onde o livro não chega

Em “As mães e educadores”, a desigualdade de acesso aparece no meio de uma convocação moral e religiosa. A aprendizagem seria mais proveitosa se encontrasse continuidade em casa, observa Anália; os livros, contudo, não estão ao alcance de todos. O periódico oferece uma solução de circulação. Pode atravessar a distância entre a escola e o lar e torna-se, na expressão da autora, “livro das famílias”. O argumento ocupa a p. 2 do fascículo.

A expressão muda nossa ideia do objeto. Um jornal não precisa apenas transmitir acontecimentos: pode criar regularidade, fornecer ocasiões de leitura e se tornar presença doméstica. A revista imagina um público por vir. Se a prática de ler ainda não se mantém sozinha, é preciso oferecer algo que volte a solicitá-la.

O documento apresenta essa possibilidade; não mede sua realização. A confiança de Anália em que o jornal penetra lares ricos e pobres não equivale a um levantamento de distribuição. Não sabemos, por esse editorial, quantas famílias receberam o Álbum, quem o pagou, quem o leu em voz alta ou quais páginas foram puladas. A diferença entre imaginar um alcance e comprová-lo deve acompanhar a leitura sem destruir o interesse da imaginação editorial.

O acesso que se pretende ampliar também tem conteúdo definido. A autora fala de bons livros e de uma orientação segura. O periódico deveria cultivar sentimentos de verdade e justiça por meio de escritos úteis e amenos. A amenidade faz parte do método: a instrução procura entrar junto com o recreio. O prazer deixa de ser simples intervalo do ensino e passa a colaborar com ele.

Há nisso uma inteligência do meio. Um texto pode defender com fervor o valor da educação e fracassar se ninguém desejar lê-lo. A revista enfrenta esse problema ao atribuir uma função à forma agradável. Mas o casamento entre utilidade e prazer também abre uma pergunta difícil: o que acontece quando uma leitora encontra prazer numa obra que sua educadora considera inútil ou perigosa?

Uma pequena expressão torna o programa mais inquietante. Ao elogiar a capacidade do jornal de transmitir ensino, Anália acrescenta que os leitores o recebem “sem presumirem em tal”. A observação pode designar a aprendizagem que ocorre sem esforço consciente, no prazer de acompanhar uma página. Não é prova de uma intenção de enganar. Ainda assim, oferece à editora uma vantagem que merece exame: a influência educativa pode agir sem se apresentar como lição. Nesse caso, reconhecer a orientação passa a fazer parte da própria liberdade de leitura.

Modéstia no início, autoridade no verbo

Anália apresenta sua voz como humilde e sem autoridade. Pede apoio, reconhece limitações e solicita contribuições de outras pessoas. Poderíamos tomar essas declarações como um retrato de timidez. A sequência do texto impede que paremos aí. A autora diagnostica o estado moral de seu tempo, distingue boa e má influência literária, propõe uma ação coletiva e anuncia a criação de uma revista.

O contraste é formal, antes de ser psicológico. Não temos acesso à intenção íntima de quem escreveu e não precisamos supor uma encenação calculada. Podemos observar que a voz se diminui enquanto sua intervenção se amplia. A modéstia ajuda a pedir acolhimento; os verbos fazem o trabalho de estabelecer um programa.

Esse movimento também está na abertura de A filha do artista. A voz que se apresenta como simples narradora promete um relato sincero e, logo depois, conduz o leitor pela paisagem e pelos julgamentos das personagens. Parte I, capítulo I, p. 1–10, na edição Busleyden de 2026. A semelhança não faz da narradora uma transcrição da autora. Mostra, em gêneros diferentes, como uma declaração de limitação pode conviver com uma forte autoridade de condução.

No editorial, a colaboração não é um ornamento dessa autoridade. Anália pede a reunião de esforços e imagina a educação acontecendo por meios diversos: imprensa, folhetos, conferências, conselhos e lições. A escritora não se descreve como suficiente para cumprir o que propõe. Essa necessidade de outros participantes limita a imagem de uma vontade individual que moldaria, sozinha, uma multidão de leitoras.

Mas colaboração entre quem ensina não é o mesmo que liberdade para quem aprende. O número de pessoas envolvidas na formação não decide, por si, quanto espaço haverá para discordar de suas finalidades. Uma orientação pode ser produzida coletivamente e continuar a exigir uma resposta previamente determinada.

A literatura que não promete consolo

O adversário estético aparece de maneira nítida. Anália se volta contra a ironia mordente, a análise fria e a dissecação que atribui à literatura de seu tempo. Para ela, esses procedimentos colaboram com a deterioração moral e familiar. O programa do Álbum pretende oferecer outra espécie de alimento à imaginação. Páginas 2–3 do primeiro número.

O editorial não nomeia os autores contra os quais dirige essa crítica. Sua oposição é feita de procedimentos: ironizar, analisar, dissecar. Para Anália, eles corroem os sentimentos que a leitura deveria cultivar. A verdade de um livro precisa responder também pelo tipo de pessoa que ajuda a formar. Essa exigência torna a avaliação literária inseparável de uma disputa sobre consequências morais.

A objeção a essa preferência precisa ser mais forte do que a defesa abstrata da liberdade artística. A ironia pode mostrar que uma expressão de generosidade também protege privilégios. A análise sem consolo pode separar a autoimagem benevolente de alguém das consequências de suas ações. Impedir a corrosão das certezas talvez preserve justamente as certezas que a educação precisaria interrogar.

Há, entretanto, uma defesa forte do programa de Anália. Desmontar crenças não ensina automaticamente a cuidar, a agir ou a construir relações menos violentas. Uma inteligência hábil em desmascarar os outros pode transformar a própria desconfiança numa superioridade confortável. A frieza também pode ter seus lugares-comuns. Esse é um argumento em favor de sua aposta no sentimento, não uma réplica que ela tenha escrito no editorial. A lucidez pode esclarecer uma situação e ainda deixar por formar a disposição de agir sobre ela.

O impasse é literário. Como cultivar a capacidade de sentir sem decidir de antemão tudo o que o leitor deve concluir? Como desconfiar das aparências sem tornar a desconfiança o único sinal de inteligência? O Álbum interessa porque assume uma resposta, com custos que podemos discutir. Uma revista sem preferências também educaria: ensinaria a imaginar que suas escolhas não são escolhas.

A educação de enfeite encontra uma adversária

No número 12, a segunda seção de “Notas sobre a educação feminina” desloca a disputa. Nas páginas impressas 269–271, Anália combate o receio de oferecer às mulheres uma formação mais vasta, com acesso às ciências, às artes e ao pensamento. Critica a educação que as prepara sobretudo para elegância, polidez e brilho social. A instrução superficial não representa para ela excesso de refinamento; representa privação de possibilidades intelectuais.

O argumento liga a distribuição de cultura à desigualdade social. Uma formação reduzida à aparência deixa a mulher capaz de exibir resultados sem lhe dar acesso equivalente ao trabalho do pensamento. É uma crítica à educação como adorno. A leitora não deveria apenas aprender a produzir uma boa impressão; deveria ter condições de compreender.

Essa exigência não abandona a finalidade familiar. A mulher instruída, conhecedora de direitos e deveres, aparece associada à regeneração da família. A passagem está na p. 270, antes da assinatura que encerra o artigo na página seguinte. Na cópia digital há sublinhados posteriores, que não fazem parte da composição impressa. Separar essas camadas ajuda a não atribuir ao texto a ênfase de alguém que o leu depois.

O vínculo entre educação e família comporta duas leituras fortes. Pode legitimar uma ampliação do saber feminino diante de pessoas que só a aceitariam se reconhecessem benefícios domésticos. Pode também restringir a justificativa dessa ampliação: a mulher receberia mais conhecimento porque o deve empregar em favor de outros. O acesso se alarga; a finalidade continua parcialmente decidida de fora.

Não há como resolver a ambivalência apenas escolhendo se Anália era avançada ou conservadora. Esses rótulos não esclarecem o mecanismo. A defesa da formação extensa se faz dentro de uma linguagem de obrigações. A pergunta do título deste ensaio nasce daí: a mulher que passa a compreender melhor o mundo poderá empregar esse entendimento para contestar as obrigações que justificaram sua instrução?

Toda edição escolhe; nem toda escolha precisa se tornar tutela

A objeção mais importante à pergunta é simples: nenhuma educação ocorre sem seleção. Escolher um texto, um nível de dificuldade, uma ordem de leitura ou um objetivo exige julgamento. Uma revista cultural que reivindique independência intelectual continuará decidindo o que publica. Acusar o Álbum de orientar leitoras apenas porque tem preferências seria recusar a própria possibilidade de editar.

É preciso situar a diferença em outro lugar. Uma escolha pode ser apresentada como proposta cujas razões o leitor pode examinar ou como caminho seguro cuja finalidade deve ser aceita antes da leitura. Entre esses polos existem graus, e o Álbum não cabe inteiro num deles. Ao pôr argumentos em circulação, oferece material para discussão. Ao prometer dirigir moralmente suas leitoras, indica a resposta que espera obter.

A autonomia intelectual torna essa expectativa instável. Quem adquire acesso a ciências, artes e formas variadas de pensamento ganha também meios de comparar autoridades. O argumento em favor da instrução ampla contém uma consequência que nenhum programa editorial consegue controlar por completo: a leitora poderá empregar a capacidade adquirida contra o juízo de quem lhe abriu a porta.

Não há nos documentos examinados um depoimento que autorize contar a história de uma assinante que tenha feito isso. Seria sedutor inventá-la: uma jovem encontra a ironia condenada pela educadora, discorda dela e conquista sua voz. O fascículo não fornece essa cena. O que fornece é a condição do conflito: a leitura deve ampliar o pensamento e, ao mesmo tempo, protegê-lo de certas direções.

Anália chama o jornal de livro das famílias. A expressão indica um lugar de chegada, não determina o último lugar a que uma página poderá levar. O título deste ensaio pergunta por uma liberdade que o editorial não garante expressamente. Sua reivindicação de instrução ampla permite exigi-la: compreender mais deve incluir a possibilidade de julgar os próprios guias. Uma revista entra em casa sob a autoridade de mães, professores e editoras. Depois é aberta por alguém. O programa está impresso; a resposta ainda não.

Referências

A assinatura

Beatriz Avelar

Crítica cultural, edição e práticas de leitura.

Revisto em 12 de setembro de 2026. Publicação original: 10 de setembro de 2026.