A revistaSetembro 2026Arquivo
REVISTABUSLEYDEN.

Livros / Ensaio

Por que desconfiar do narrador que defende a heroína?

Um insulto em A filha do artista e um elogio em Senhora mostram como ler um clássico sem entregar a ele o direito de decidir tudo por nós.

Beatriz Avelar11 min de leitura
Um livro aberto, um lápis e um marcador ao lado de uma janela iluminada.
Ilustração editorial sobre ler no próprio ritmo.

Aos olhos de Delmira, Edith já está explicada. É “a filha da cômica”. A moça acaba de chegar à Fazenda Bela Vista, depois da morte da mãe, e encontra nessa apresentação uma maneira de lhe negar importância. Florisa, a madrinha que a acolhe, corrige a informação: Hermantina nunca subiu ao palco. Delmira responde que, se foi o marido, dá no mesmo. A anfitriã interrompe a disputa e passa a cuidar da jovem humilhada. A filha do artista, parte I, capítulo I, p. 8, na edição Busleyden.

O episódio é curto, e o essencial parece resolvido. Delmira é cruel; Florisa, generosa. O narrador favorece a órfã, e seria estranho desejar o contrário. Mas uma dúvida pode surgir justamente porque estamos do lado que o romance nos indica: se a mãe de Edith tivesse sido atriz, a humilhação seria menos injusta?

Essa pergunta não exige conhecer previamente uma escola literária. Exige prestar atenção à defesa efetivamente oferecida. Florisa nega a profissão atribuída à amiga. Não diz que exercer aquela profissão deixaria intacta sua dignidade. A leitura começa a ficar interessante quando o narrador que nos ajuda a condenar um preconceito também nos permite perceber o limite da resposta a ele.

É possível entrar num clássico por uma dúvida assim. Não como quem chega despreparado a uma prova, nem como quem se instala acima do livro para corrigir o passado, mas como alguém que aceita uma afirmação e acompanha suas consequências. A concordância deixa de ser repouso. Torna-se um trabalho de atenção.

O dicionário não encerra o insulto

Para entender a cena, importa saber o que significa “cômica”. O contexto esclarece que a palavra se refere ao teatro; a réplica sobre subir ao palco torna insuficiente o sentido contemporâneo mais imediato de pessoa engraçada. Uma consulta lexical poderia confirmar a acepção. Ainda restaria, porém, quase todo o episódio a ler.

Delmira emprega a palavra para classificar uma pessoa ausente e, por meio dela, a filha que tem diante de si. A profissão suposta vira origem, e a origem se transforma em sentença sobre alguém que sequer exerceu essa profissão. A réplica “o que equivale a mesma coisa” é especialmente reveladora. A distinção factual não altera o veredito: Delmira conserva o resultado mudando o caminho até ele.

Uma leitura desatenta poderia concluir que a velha senhora se enganou. A sequência demonstra algo mais preciso: o engano corrigido não a desarma. Ela não estava investigando a biografia de Hermantina. Estava estabelecendo a posição de Edith dentro da casa. A consulta que resolve o vocabulário precisa devolver o leitor a esse uso da palavra; do contrário, trocamos uma dúvida viva por uma definição correta e insuficiente.

Isso ajuda a decidir quando vale interromper uma página. Se desconhecer uma palavra impede compreender o que alguém prometeu, recusou ou fez, a pesquisa tem urgência. Se apenas deixa imprecisa uma tonalidade da paisagem, talvez seja possível continuar e voltar depois. A diferença não se dá entre detalhes importantes e descartáveis para sempre. Diz respeito à ordem em que a leitura consegue lhes dar função.

A biografia chega depois do veredito

No capítulo seguinte, o romance recua. Conhecemos Álvaro, artista e professor; a formação recebida por Hermantina; a doença da mãe; os estudos e o trabalho de Edith. A jovem ensinava meninas em casa e ajudava a sustentar aquele cotidiano. O que Delmira resolveu em poucas palavras recebe um capítulo de duração. Parte I, capítulo II, p. 11–19.

A posição desse passado altera seu efeito. Se tivéssemos conhecido toda a história familiar antes da chegada à fazenda, o insulto atingiria uma pessoa cujos méritos já teríamos reunido. Na ordem escolhida, primeiro assistimos à redução; depois recebemos o que foi reduzido. Uma biografia passa a disputar espaço com uma categoria.

É possível apreciar a força do procedimento e ainda desconfiar de sua conta moral. O capítulo recupera a dignidade da jovem mostrando dedicação, talento e sofrimento. Precisaria mostrar tanto? Se Edith fosse uma professora mediana ou uma filha impaciente, o julgamento de Delmira se tornaria aceitável? O argumento em favor de uma pessoa particularmente admirável pode deixar intacta a hierarquia que condenaria outra, menos capaz de impressionar.

Não é necessário supor que esse seja o propósito consciente de Anália Franco. Estamos descrevendo uma tensão produzida pela leitura. O romance amplia o conhecimento que temos da órfã e mobiliza a simpatia; esse mesmo movimento nos leva a perguntar se a simpatia está exigindo uma quantidade excessiva de virtude como condição para operar.

O detalhe também impede tratar retrospectos como peças de mobília herdadas de um estilo antigo. A volta ao passado faz alguma coisa no presente da leitura: distribui informação e reorganiza o julgamento. Um nome técnico pode ser útil mais tarde. A primeira descoberta é perceber quanto perdemos se resumimos o trecho à categoria de “explicação da infância”.

O rosto bom e o direito de parecer desagradável

A defesa de Edith começa antes do insulto. Sua beleza, a delicadeza dos gestos e a meiguice dos olhos são apresentadas de modo a conduzir o leitor à admiração. Delmira, por sua vez, chega descrita por traços que o narrador liga ao egoísmo e à insensibilidade. A avaliação das pessoas passa pelo aspecto visível de seus corpos. A hostilidade social da velha e a hostilidade narrativa à velha se encontram, mas não são a mesma coisa.

Isso pode causar um desconforto legítimo. O leitor deseja que Edith seja protegida sem precisar aceitar que bondade tenha uma fisionomia reconhecível. Também pode notar que a defesa da distinção natural da órfã disputa com Delmira os critérios de superioridade, em vez de abandoná-los por completo. O olhar cruel procura um defeito no rosto da jovem e não o encontra. O episódio frustra a expectativa da observadora, mas o próprio exame físico continua participando da prova.

Em Senhora, na abertura de “O preço”, José de Alencar oferece uma variação instrutiva. Aurélia Camargo aparece como estrela dos salões, rica, admirada, cercada de pretendentes. O narrador revela seu desprezo por essa disputa e pergunta como um rosto tão belo poderia abrigar sarcasmo. Os olhos ternos pareceriam ter sido feitos para outra expressão; o corpo deveria responder ao amor, não ao desdém.

O restante do capítulo impede uma resposta rápida. O sarcasmo, que pareceria afastar os pretendentes, aumenta sua atração: o narrador descreve a sedução exercida pela revolta de Aurélia. Se ela se mostrasse casta e inocente, talvez passasse despercebida. O mundo dos admiradores é censurado por desejar justamente aquilo que suas convenções parecem condenar. A hostilidade não liberta a moça de ser interpretada como promessa de prazer.

Seria possível, então, atribuir todas as perguntas sobre a beleza ao olhar social que o romance critica. Mas a frase sobre o anjo casto que existiria em Aurélia acrescenta “como há em todas as moças”. A generalização projeta uma norma para além daquela personagem. O narrador denuncia a cobiça dos homens e preserva uma ideia da pureza feminina contra a qual a revolta será medida. Sua defesa não precisa ser hipócrita para conter essa dupla operação.

É aqui que a desconfiança ganha um objeto. Em vez de acusar vagamente o livro de contradição, podemos acompanhar três movimentos do mesmo capítulo: o desdém da jovem, a atração que ele provoca e a inocência que a voz narrativa imagina por baixo dele. Quem lê pode admirar a inteligência dessa construção e recusar o ideal que a organiza. Essa discordância encontra apoio na frase inteira, inclusive na parte que dificultava nosso primeiro julgamento.

Edith e Aurélia não são variações intercambiáveis da mulher do século XIX. A órfã acolhida de Anália e a senhora rica de Alencar possuem poderes distintos. A aproximação interessa porque ambas são apresentadas por uma linguagem que liga aparência, valor e expectativa. Ler comparativamente significa acompanhar o que uma passagem torna mais visível na outra, sem exigir que uma vença.

A melhor defesa do narrador enfático

Há uma objeção séria a essa leitura desconfiada. Talvez ela cobre de uma narrativa sentimental um tipo de ambiguidade que não pertence a seu projeto. Se a intenção é mobilizar o leitor contra a humilhação de uma jovem, por que reduzir a intensidade da simpatia? A insistência na bondade de Edith pode formar o vínculo emocional que nos fará acompanhar centenas de páginas. Clareza moral também produz experiência literária; a sutileza não é a única maneira de pensar.

A objeção merece mudar nosso modo de ler. Podemos experimentar a força de um comentário antes de censurar sua insistência. Podemos ouvir uma passagem em seu andamento e perceber como a acumulação prepara uma indignação. Um romance não se reduz ao conjunto das opiniões que aceitaríamos subscrever fora dele. Seu ritmo pode nos levar a sentir uma relação que a fórmula abstrata não alcança.

Mas reconhecer uma função não significa que ela sempre seja bem executada ou que seus efeitos sejam indivisíveis. A insistência pode fortalecer uma cena e exaurir outra. A mesma estratégia que nos aproxima da pessoa humilhada pode nos acostumar a exigir dela excepcionalidade. A leitura crítica não precisa escolher entre a gratidão ao livro por nos comover e o direito de examinar o preço dessa comoção.

Convém, portanto, distinguir duas afirmações. Dizer que o narrador nos conduz é descrever uma construção. Dizer que conduz demais, ou pelo caminho errado, é um julgamento que precisa de um trecho e de uma razão. Depois de ler, alguém pode continuar achando a prosa excessiva. Terá ganho algo se conseguir mostrar onde uma repetição deixa de alterar a cena e passa apenas a reiterar o sentimento que já estava estabelecido.

O capítulo III de A filha do artista oferece uma imagem sugestiva desse risco. Valdomiro interpreta a fala de Carlinda em favor de Edith como indício de uma intenção escondida. O rapaz, diante de um livro aberto, não lê uma linha, absorvido pelas próprias cogitações. É preciso que a menina continue a falar para que ele reconheça o engano. Parte I, capítulo III, p. 20–29. A cena não demonstra uma teoria da leitura, mas permite uma aproximação: Valdomiro só revê a suspeita quando recebe algo que sua primeira interpretação não havia conseguido acomodar.

O que uma edição pode aproximar

Parte da distância de um livro antigo está na grafia; parte, em sua organização das frases e dos valores. Confundir as duas coisas cria expectativas falsas. A nota “Sobre esta edição” de A filha do artista, na edição Busleyden de 2026, declara a atualização de ortografia e convenções gráficas e a correção de lapsos tipográficos inequívocos, preservando vocabulário, sintaxe e registro narrativo. Essa é uma declaração editorial, não uma frase de Anália nem uma demonstração de que cada escolha foi executada sem falha.

O leitor pode, assim, encontrar palavras mais familiares à vista e ainda sentir a resistência de uma frase extensa, de uma comparação religiosa ou de uma certeza moral. A edição aproximou o acesso; não prometeu transformar o romance em uma prosa feita hoje. É nesse espaço que a leitura ganha uma vantagem sobre a simples atualização: podemos conviver com um modo de narrar sem confundi-lo com nossa maneira habitual de ver.

O contexto continua necessário quando a pergunta o exige. Uma cena literária não informa, por si só, a frequência de um preconceito em toda a sociedade, o rendimento médio de uma professora ou os direitos de uma atriz. Para essas questões, precisamos de outras fontes. Para perceber que Delmira mantém o desprezo depois de corrigido o erro factual, precisamos primeiro escutar sua réplica.

Voltar a essa frase já será ler um livro diferente daquele em que apenas reconhecemos uma vilã. Talvez a próxima descoberta esteja na defesa incompleta de Florisa; talvez esteja no desconforto de uma narração que pretende fazer justiça. A leitura não precisa esperar que você saiba tudo. Mas o livro também não precisa receber de você, junto com a primeira página, uma promessa de concordância.

Referências

  • Anália Franco, A filha do artista. Editora Busleyden, 2026. Parte I, capítulos I–III, p. 1–29; “a filha da cômica”, p. 8. A declaração de critérios textuais pertence à nota editorial “Sobre esta edição”, página sem numeração anterior ao romance.
  • José de Alencar, Senhora, “O preço”, capítulo I. O exame compara as apresentações de Edith e Aurélia; não pressupõe influência entre as passagens.

A assinatura

Beatriz Avelar

Crítica cultural, edição e práticas de leitura.

Revisto em 12 de setembro de 2026. Publicação original: 12 de setembro de 2026.